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Guerra sem Fim

Guerra sem Fim: Mergulhando no submundo do crime

Por Enio Marcio do Valle Leite, em 02/01/2006

A censura judicial da novela O Marajá na véspera da estreia da novela, forçou a emissora a produzir a toque de caixa a sinopse de Guerra Sem Fim, uma novela-reportagem de José Louzeiro, focada em também um assunto bombástico e pertinente à epoca: o submundo do Comando Vermelho (CV), organização criminosa que supostamente comandava o crime organizado no Rio de Janeiro dos anos 90. A novela contava exatamente com o mesmo elenco de O Marajá.

Alexandre Borges era o chefão do tráfico na novela
Essa novela mostrou uma garra admirável de uma equipe que trabalhou com recursos baixos, mas cheia de vontade. No entanto, nem a garra, nem a mágoa conseguiram trazer um espetáculo memorável aos telespectadores. Pelo contrário: a história dos problemas de segurança no Rio de Janeiro, com morros povoados de bandidos e policiais em luta armada, apresentou um dos climas mais negativos da televisão brasileira.

A equipe tinha que pedir permissão aos traficantes que comandavam as locações para gravar em horários determinados.

No último capítulo, apesar das polêmicas, os autores fizeram a união de Monarca (Hélcio Magalhães) e Viúva Negra (Paulão Barbosa), os homossexuais da trama.
Parte das cenas foram gravadas nos saguões e escritórios dos dois prédios da Manchete, no Rio de Janeiro, como medida de economia. Em um deles ficava o escritório do traficante Monarca (Hélcio Magalhães), e a casa de Lili Marlene (Lúcia Alves), mãe de Flávia (Júlia Lemertz), ocupava o outro. As externas eram gravadas no morro da Mangueira.
Júlia Lemertz e Alexandre Borges fizeram um par romântico nessa novela que se repetiria na vida real.

Foi o último trabalho do ator Rúbens Corrêa, que morreria no ano seguinte.

O Desafio de produzir uma novela sobre o tráfico de drogas em plena favela carioca

Louzeiro, que iniciou sua vida profissional como repórter policial, colheu depoimentos de autoridades das polícias Militar e Civil e também dos dirigentes reconhecidos do Comando Vermelho, como José Carlos do Reis Encina, o "Escadinha" e José Carlos Gregório, o "Gordo", que chefiaram a organização de dentro do presídio de segurança máxima Bangu I. José Louzeiro concluiu que o Comando Vermelho foi um "mito" criado por gente "muito poderosa" e que garantia que os depoimentos colhidos apresentam "revelações surpreendentes", que não adianta quais sejam.

A idéia de escrever sobre o Comando Vermelho para a televisão é antiga, conta José Louzeiro, e ganhou corpo a partir de uma série de artigos que vem escrevendo para um jornal carioca. Por causa destes artigos, visitou Bangu I para conversar com "Escadinha" e "Gordo". "Fui recebido com reticências no início, mas consegui vencer a resistência e por fim ouvi coisas surpreendentes", revela.

Louzeiro começou o trabalho com uma pergunta pré-formulada (e que está na reflexão de qualquer pessoa que pense a questão do crime organizado no Rio de Janeiro): será o Comando Vermelho efetivamente uma organização toda-poderosa, ou haverá acima dele uma estrutura controladora, chefiada por "big bosses" que jamais aparecem?

Surpreendentemente, o escritor ouviu a resposta positiva do subcomandante da polícia Militar, coronel Jorge da Silva: "O CV é comandado por gente de muito poder e muito dinheiro, que banca os seqüestros, o tráfico de drogas, o tráfico de crianças, o contrabando. `Escadinha’ e seus comparsas não teriam condições de financiar estas atividades. O Comando Vermelho é um mito criado por estes poderosos para atribuir a terceiros a responsabilidade pelos crimes", disse o militar, segundo Louzeiro.

O autor pretendia imprimir à série do CV a mesma linha que combina dramaturgia e jornalismo usada em "O Marajá". Ele voltaria à Bangu I para filmar entrevistas com "Escadinha" e "Gordo". Os teipes serão alternados com cenas de ficção e outras dos arquivos da TV Manchete.

O escritor conversou com o ex-delegado e atual deputado estadual Sivuca - eleito com o lema "bandido bom é bandido morto" - que lhe revelou as cifras movimentadas pelo crime organizado no Rio. São números impressionantes, adianta. Impressionante, também, é outra conclusão: "a polícia está envolvida em 11 de cada dez crimes cometidos no Estado", avalia Louzeiro, para quem a televisão precisa deixar de ser uma "brincadeira televisiva" e passar a "refletir a realidade". Ele não teme o tema delicado. "Há muitos anos escrevi "Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia", recebi ameaças, mas estou aqui, diz.

A novela sobre o Comando Vermelho deveria ter um narrador como condutor da história. Como a intenção era de que fosse ao ar somente em janeiro de 1994, nao há ainda atores escolhidos, mas o autor pensa em Alexandre Borges, Ivan Setta, Jonas Bloch e Julia Lemmertz. Se fosse mantida a interdição de "O Marajá", José Louzeiro convocaria outros escritores para acelerar a produção da nova trama que já tinha titulo definido: Guerra sem Fim.

Por Enio Marcio do Valle Leite, em 02/01/2006

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