Rede Manchete

Trajetoria da Manchete

1998-1999: Segunda Crise

Por Guilherme Barbosa, em 17/05/2009
A Manchete sai da crise? - 1998
A Manchete sai da crise? - 1998
A Rede Manchete entra no ano de 1998 com primeiros de sinais de desgastes: A novela Mandacaru dava baixos lucros e os programas jornalísticos estavam desgastados. Aliada a isso, a situação econômica do Brasil e mundo não era estável desde a crise asiática de outubro de 1997, com as taxas de juros em alta. As dívidas da emissora aumentavam cada vez mais quando não eram pagos.

A Manchete anunciava novidades já no mês de março. A primeira delas consistiu em uma grande reformulação dos noticiários da Rede. O "Jornal da Manchete" foi totalmente renovado e teria três edições ao longo do dia. A proposta era que o jornalismo voltasse a ser como na época da estréia da emissora. Assim, no dia 27 de março, o telejornal entrava em cena com cenário totalmente futurista, trazendo de volta a redação do jornal, atrás de um vidro que mostrava um enorme mapa-múndi.

Claudete Troiano assume o comando do vespertino "Mulher de Hoje". Salomão Shwartmman substituía o "Momento Econômico" pelo "Frente a Frente". O programa "Pra Valer" estréia nas tardes diárias pelo apresentador Celso Russomanno. Inicialmente, "Pra Valer" era um quadro do programa "Mulher de Hoje". Depois, ambos passaram a ser um único programa cada um.

Em 23 de março, estreava o programa "Madalena Manchete Verdade", às 19hs30min, o programa de casos verídicos apresentado por Magdalena Bonfiglioli, recém-saída do SBT. A atração veio como uma resposta ao programa "Márcia" do mesmo gênero, com a então desconhecida Márcia Goldschmidt e ao "Programa do Ratinho", ambros exibidos pelo SBT. A fórmula utilizada era a mesma, com cenas de baixaria entre os convidados diante das câmeras, o que se repetiu na atração da Manchete. O programa mostrou bons resultados. Sua fórmula já era conhecida: nele, os convidados davam depoimento de seus problemas para a apresentadora, e a equipe do programa tentava resolvê-los. Caracterizou-se por ser um programa extremamente popular.

Aos domingos também houve uma grande novidade. Em parceria com a produtora independente TV Ômega, de propriedade de Amílcare Dallevo, a Manchete substituía o mal-sucedido "Domingo Milionário" pelo "Domingo Total", comandado por Otávio Mesquita, Virgínia Novick e Sérgio Malandro. O programa teve ótimos índices de audiência, principalmente quando entrava no ar o quadro comandado por Otávio Mesquita, onde o apresentador acordava vários famosos. Sérgio Malandro também se destacou com à frente da "Festa do Malandro".

Mesmo com essas bem-sucedidas estréias dos programas, os juros das dívidas da emissora cresciam o que prejudicava a emissora, que pela primeira vez ultrapassava o valor da própria emissora e há primeiros casos de atrasos de salários.

Pela legislação vigente, a rede deveria ter encerrado as atividades, diante de dividas que ultrapassam o próprio patrimônio e a ausência do pagamento de diversos tributos. Mas o ótimo relacionamento entre governo federal e a rede, impediu o fechamento, pois iria provocar o desemprego em massa dos funcionários. Mesmo assim, a emissora luta para sobreviver e passa começar a produzir e gravar a novela "Brida", como nova esperança. A nova novela é baseada no livro do mesmo nome de Paulo Coelho. Para poder produzi-la, foi tomada a decisão de priorizar os investimentos, levando o resto da programação a um estado de penúria. Mesmo assim, o setor de teledramaturgia sofre: desde salários atrasados a problemas com a alimentação oferecida pela emissora.

Em junho, os salários dos funcionários do mês de maio não foram pagos, o que era um péssimo sinal. No mesmo mês, a equipe da emissora instalou-se na França para a cobertura (até a extinção da emissora) o que seria a última Copa do Mundo. A emissora superou todas as dificuldades na transmissão dos jogos. O que não se contava era com o fraco desempenho, obtendo na terceira partida zero ponto na cidade de São Paulo e 1 ponto na cidade do Rio de Janeiro. Afinal de contas, a emissora investiu pesado na transmissão, enviando uma grande equipe realizar a cobertura da Copa. Mas os motivos para este fraco desempenho estão visíveis. A emissora não tem tradição em transmissões esportivas, especialmente em futebol. Sem uma equipe fixa de comentaristas e locutores, a emissora teve de improvisar, chamando locutores e comentaristas de rádios cariocas além de técnicos de futebol. A mesa-redonda, apresentada pelo Otávio Mesquita, pode ser considerada como a mais chata existente. Finalmente, o principal motivo: a falta de uma programação anterior ao jogo que impulsione a audiência.

No dia 19 de julho, o programa semanal "Domingo Total", umas das principais atrações da rede, apresentado pelo Otávio Mesquita, entra no ar pela última vez, ao ser contratado pelo SBT. O programa possuía uma das maiores audiências da emissora, atingindo 6 pontos no Ibope. No lugar da atração, entrou no ar em 26 de julho, o "Festa do Mallandro", apresentado pelo comediante e ator Sérgio Mallandro, que chegou a ocupar durante um período (mas espeficamente durante a prova de IndyCar) o segundo lugar no Ibope.

Em 3 de agosto, graças ao lançamento do novo livro de Paulo Coelho, "Verônica Decide Morrer", a rede obtém uma publicidade extra para novela "Brida". No mesmo mês, estréia "Brida", novela baseada no best-seller de Paulo Coelho, no lugar da novela "Mandacaru", pois passou ser exibida por um ano e rendeu em média de 15 pontos de audiência (segundo o Ibope) e que emissora espera recuperar a audiência do horário. Na nova novela, a rede apostou no esoterismo e no erotismo, temas de presença constante nas novelas da emissora. Mas uma vez, caras novas na telinha, atores oriundos do teatro e de outras áreas, como a cantora Simone Moreno. A produção, no entanto, tem sido conturbada, marcada por problemas financeiros e pelas desavenças criadas pelo Walter Avancini. A novela não alcançou bons índices de audiência a direção da emissora esperava ter 5 ou 6 pontos e Walter Avancini queria até 12, mas marcou apenas 2 e 3, muito piores do que a antecessora Mandacaru, o que levou os anunciantes abandonarem o patrocínio. O fracasso da novela ameaçou o emprego de Walter Avancini e diante da crítica situação, tenta desesperadamente salvar a novela, tendo trocado o autor Jayme Camargo por Sônia Mota (filha de Nelson Rodrigues) e Angélica Lopes (que trabalhou com o diretor na novela "Tocaia Grande"), ambas participantes da elaboração da sinopse. Avancini contratou e cogitou vários atores, alguns oriundos da Tocaia Grande.

Em setembro, a situação da Manchete leva a perda de audiência e saída de apresentadores. A situação se agrava com os anúncios das primeiras emissoras afiliadas e as retransmissoras dos anos 80 e 90 em deixar a Rede Manchete, passando para as redes Record, CNT e Bandeirantes.

Em 7 de setembro, Jayme Monjardim, deixa Manchete e volta à Rede Globo, depois de 10 anos ter sido afastado da emissora. O apresentador Raul Gil, que comandava o Programa Raul Gil, entre 14-20 horas todos os sábados por quase 4 anos e que rendia em média 7 pontos de audiência, anuncia que vai deixar a emissora pela Record para apresentar a atração similar.

Em 18 de setembro, funcionários da Manchete ameaçam entrar em greve devido o atraso e o parcelamento de salários aos que ganham acima de R$ 700,00 e alguns deles iniciaram a greve. Para piorar a situação, a novela Brida, principal produto da emissora vem se revelando num grande fracasso. Por fim, a rede não pode ser vendida devido ao processo na justiça impetrado pelo Hamilton Lucas em 1993.

Em 22 de setembro, Márcia Peltier, apresentadora do "Jornal da Manchete", perde demissão na emissora por causa da crise. Ela é contratada pela Rede Bandeirantes para apresentar o programa feminino na noite "Mulheres do Brasil" em 1999.

Em 1º de outubro, a TV Vitória, afiliada e única emissora retransmitindo Manchete no estado de Espírito Santo há 14 anos, deixa a rede que enfrentava crise para a Record, deixando o estado sem sinal da emissora. Antes da mudança de rede, a TV Vitória negociou a Record por dois anos para manter a programação local e até chegou exibir programas da Igreja Universal do Reino de Deus na época que retransmitia a Manchete.

No mesmo dia, novas debandadas na Manchete: o diretor geral da programação da rede Fernando Barbosa Lima, o apresentador Ronaldo Rosas e a diretora de eventos jornalísticos especiais Ana Costábile, anunciam que vão deixar a emissora. Notícias (que seriam confirmadas mais tarde) dão conta que cerca de 600 funcionários vão ser demitidos nos próximos dias. O objetivo é reduzir em 50% os gastos com pessoal. Todos os programas jornalísticos, com exceção do Jornal da Manchete, vão ser extintos. Fernando Lima é contratado pela TVE Brasil.

A direção do grupo Bloch reage à nova crise e decide demitir quase 700 funcionários da emissora (30% do quadro de TV e 20% da editora) dos que tinha cerca de 1.700 funcionários, corta a produção de quase todos os seus programas jornalísticos, abortando inclusive a novela "Brida" e vários programas extintos: "Na Rota do Crime", "Magdalena, Documento Verdade", "24 Horas", "Mistério" e a novela "Brida" (acusada de ser o motivo da crise, teve a equipe reduzida, assim como o número de capítulos). A direção decidiu que após o termino da novela, o departamento de dramaturgia será desativado, sendo colocado no ar a reprise da novela "Pantanal".

Em 4 de outubro, faz a cobertura das eleições de 1998, mas com a crise, a cobertura foi pífia, tornando-se grande decepção das eleições, apesar de ter grande tradição na cobertura dos grandes eventos políticos, tendo ocupado uma posição de destaque nas eleições anteriores.

No dia 5 de outubro, Pedro Jacques Kapeller, presidente do Grupo Bloch e dono da Rede Manchete de Televisão, anuncia durante uma reunião com diretores e editores do grupo, que todas as empresas estão à venda. Durante a reunião não foi informado se o grupo será desmembrado para facilitar a possível venda. O anúncio foi feito às vésperas do pagamento do salário de setembro. A direção da emissora já anunciou que não possui dinheiro em caixa para realizar o pagamento dos funcionários e tenta negociar um acordo, que evite uma nova greve, com a direção de três sindicatos dos radialistas, gráficos e dos jornalistas. Recentemente, houve o parcelamento do pagamento dos salários dos funcionários quem ganham entre R$ 700,00 e R$ 5.000,00, dando início a um momento grevista. Quem ganhava acima de R$ 5.000,00 continua sem receber desde setembro.

Na prática, a decisão de Kapeller contraria a liminar judicial, conseguido por Hamilton Lucas em 1993, agora presidente do Grupo DCI - Editora Jornalística, que diante deste impasse, a direção do Grupo Bloch tenta vender apenas uma pequena parte da Rede Manchete, mantendo o seu controle. Kapeller tenta também encontrar uma "solução política" para salvar a emissora. Vale lembrar que o Banco Brasil e o Governo Federal estão entre os maiores credores da rede.

O Grupo Abril vem sendo apontado como o provável comprador do Grupo Bloch.[16] Roberto Civita anunciou que não possui interesse na produção de TV. Segundo boatos, já confirmados, a direção da Bloch já teria oferecido a emissora a família Civita.[16] [23] Apesar do Bloch ter negociado à Civita, surge outro comprador Edir Macedo, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus e proprietário da Rede Record, que a Manchete passaria a integrar a Rede Família.[23] Vale ressaltar que não é a primeira vez que Macedo tenta comprar a Manchete.[23]

Devido à propaganda eleitoral de vários estados, o programa de vídeo clip exibido de segunda à sexta às 20hs, com duração de 30 minutos, "Manchete Clip Show", passa ter mais 20 minutos de duração, pois na época do segundo turno das eleições para os estados durante o mês de outubro passa das 20hs30min até 20hs50min.

Em 7 de outubro, a superintendente do Grupo Bloch e vice-presidenta da Rede Manchete, Jacqueline Kapeller, reúne-se com cerca de 300 funcionários na sede da emissora, no Rio de Janeiro, pedindo a compreensão pelos salários atrasados. Disse que as dificuldades são conjunturais e que todo o setor de comunicação está em crise.[25] O pedido coincidiu no mesmo dia que os salários de setembro não foram pagos.[26]

Em 9 de outubro, as dívidas com a recém-privatizada Embratel (junto com a CNT) passa começar a ser descontadas através dos cortes diários do sinal da emissora no satélite, entre 23 horas da noite até as 6 horas da manhã, prejudicando programas no fim de noite e início da madrugada[27] e as afiliadas que a retransmitem.[28] Com isso, as redes não foram incluídas na medição de audiência.[29]

Em 13 de outubro, as negociações para a venda da rede, anunciada internamente por dias anteriores este dia, aos funcionários da emissora,[26] esbarram na disputa jurídica de seis anos sobre a propriedade da rede,[26] quando o empresário Hamilton Lucas de Oliveira, comunicou que não foi consultado sobre o assunto e que, sem seu aval, uma hipotética venda é impossível.[26] Mas o processo, que levou Oliveira perder a emissora pelo Bloch em 1993, continua tramitando na 35ª vara cível do Rio de Janeiro.[26]

Os vencimentos de agosto foram pagos com atraso e apenas a quem ganha menos de R$ 5 mil e os salários maiores acima de 5 mil ainda estão pendentes.[26] E o pagamento de setembro, que deveria ter sido feito até dia 7, tampouco foi depositado.[26] Segundo a gerente de comunicação, Adriana Carvalho, a Jacqueline Kapeller explicou aos funcionários que o grupo busca sócios, não a venda total. A superintendente informou, também, que há três empresas interessadas, sem revelar quais.[26]

Em litígio com a família Bloch, Hamilton de Oliveira enviou comunicado ao jornal Gazeta Mercantil, alegando que não procede a intenção dos donos da rede de vender a emissora, porque ela 'já fora vendida a mim e à DCI-Editora Jornalística'.[26] Segundo o advogado Roberto Leonessa, que representa Oliveira, a decisão sobre a propriedade da Manchete está sub judice e isto impediria que qualquer uma das partes (tanto Oliveira quanto os Bloch) promova a venda mesmo parcial das cotas, a menos que entrem em entendimento, 'o que não está acontecendo'.[26]

Em 14 de outubro,[23] cerca de 1100 funcionários das cinco emissoras próprias da Manchete, entram em maior greve[23] da história da rede, para protestar a demissão de 600 funcionários e também os atrasos dos salários[23] em cinco emissoras próprias da Manchete (RJ, BH, RE e FO foram pagas até agosto e a de SP até setembro). No mesmo dia, o elenco da novela Brida adere à greve e praticamente interrompe as gravações da novela. Os grevistas ameaçam interromper as transmissões da rede[23] caso não sejam pagos. Na mesma semana da greve, a DCI-Editora Jornalística se interessa para comprar a Manchete.[30]

Em 19 de outubro,[30] foi gravado o último capítulo da novela Brida, que seria exibida no dia 22,[30] [31] quando a equipe da novela reuniu em frente ao prédio da emissora para melancólico encerramento das gravações e início de uma batalha judicial para garantir direitos trabalhistas.[30] [31] A novela é encerrada às pressas diante do estouro da nova crise na emissora, agravado pela adesão do elenco na novela à greve dos funcionários,[23] quando a greve do elenco precipitou o fim da novela.[30] No mesmo dia, cerca de 30 artistas, ex-integrantes da novela, entram no Tribunal Regional do Trabalho do Rio de Janeiro (TRT-RJ) com uma petição contra a produtora Bloch Som & Imagens, exigindo o pagamento dos salários atrasados. A produtora deve cerca de R$ 150 mil aos artistas. A petição foi entregue por Carlos Fernando Albuquerque, advogado do Sindicato dos Artistas e Técnicos de Espetáculos e Diversões (SATED-RJ), e exige também o fim dos contratos de exclusividade dos artistas com a emissora.[31] No dia 23, era exibido a reprise do último capítulo de "Brida".[32]

Uma semana depois da greve, os funcionários da TV Manchete de São Paulo colocaram no ar slides exigindo soluções para a crise.

Em 26 de outubro, no lugar de "Brida", a Manchete coloca no ar a reprise da novela "Pantanal", que em duas semanas já apresentava o triplo da audiência de sua antecessora.[33] Na segunda semana, chegou aos 4 pontos.[34] Com o sucesso de "Pantanal", a Manchete pode aumentar os intervalos destinados aos comerciais, o que resultaria num aumento de faturamento que possibilitaria o pagamento dos salários atrasados dos funcionários.[33] No mesmo dia, boatos da Rede Mulher, associada a um banco japonês, estaria interessada em comprar a rede, mas os bancos no Japão se encontram em dificuldades à crise internacional de agosto do mesmo ano.[35]

Em 4 de novembro, o Ministério das Comunicações indica o Banco Pactual para tentar resolver a crise[36] e promover a venda da Rede Manchete.[37] O banco tenta conseguir uma trégua na disputa entre Hamilton de Oliveira e o Grupo Bloch que permita a venda da emissora.[37]

Em 5 de novembro, o ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, confirma que o Banco Pactual está trabalhando como adviser na venda rede e que o banco tentará viabilizar uma saída para a empresa e que o ministério tem por objetivo manter a Manchete funcionando e evitar os problemas aos funcionários que possam ser causados por dificuldades financeiras da empresa. A declaração do ministro, coincidiu o dia das comemorações do primeiro aniversário da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), na sede da entidade, em Brasília, onde Luiz Carlos participa.[38] [39]

Em 8 de novembro, os funcionários da TV Manchete São Paulo decidem paralisar novamente as atividades em função da diretoria da emissora não ter cumprido o acordo que previa o pagamento dos salários atrasados.[40]

Na semana seguinte, representantes da Televisa chegam ao Brasil negociando com todas as partes envolvidas, demonstrando interesse em realizar uma provável compra.[37]

Em 23 de novembro, os representantes dos funcionários do Grupo Bloch entraram na negociação, tentando acelerar a venda da emissora.[37]

Em 26 de novembro, a Eletropaulo suspende o fornecimento de energia elétrica à TV Manchete São Paulo, durante a tarde. A emissora não paga as contas pelo serviço desde março de 1996. Durante o período em que ficou sem energia, a emissora utilizou os próprios geradores. A Eletropaulo restabeleceu o fornecimento após a emissora ter comprovado o pagamento da conta do mês de novembro de 1998.[41]

No final do mês, o Sindicato dos Artistas, que representa ex-atores da novela Brida, entra em ação judicial e consegue liminar na justiça suspendendo a exibição do Pantanal sob o argumento que a emissora não havia pago os direitos de reexibição aos artistas da trama,[33] mas o Grupo Bloch recorre da sentença.

Em 30 de novembro, o ex-diretor da TV Cultura de São Paulo, Roberto Muylaert, faz a primeira visita à TV Manchete Rio de Janeiro. Muylaert negou que será novo diretor da emissora.[42]

Em 1º de dezembro, Roberto Muylaert é contratado pelo Banco Pactual como consultor para avaliar a viabilidade da programação da emissora.[42]

Em 9 de dezembro, o Banco Pactual define estratégia para reerguer a Manchete, como a formação da produtora, com o nome de SuperTV1, que ficaria responsável pela programação que irá ao ar e pela comercialização dos espaços publicitários.[43] A idéia é que a Manchete receba da produtora o aluguel pelo uso das instalações e dos equipamentos e que a receita (obtida com a nova programação) seja utilizada para amortizar a dívida da emissora. Quanto aos funcionários, cedidos para produtora, mantendo o vínculo empregatício com a Manchete, o que seria provável que metade dos salários atrasados seja pagos e o restante seja transformado em ações da empresa.[43] A estratégica do Banco Pactual tem a aprovação do Grupo Bloch, mas o banco continua enfrentado problemas gerados pela discordância do empresário Hamilton de Oliveira que reclama na justiça a propriedade da emissora e apesar disto, o banco continua acreditando que o processo de reestruturação da Manchete possa obter mesmo sucesso alcançado com na estruturação do Grupo Mesbla e as 15 empresas.[43]

Em 11 de dezembro, ocorre o impasse entre a direção da emissora e o Banco Pactual. Kappeler exige que o banco assuma as dívidas trabalhistas e os salários atrasados dos funcionários, o que o banco não aceitou.[44] O impasse levou o Ministério das Comunicações a convocar Kappeler, já que se encerrou na mesma semana o prazo de renovação da concessão da Manchete.[44]

A notícia do impasse provocou a convocação de uma assembléia dos funcionários, ocorrida durante a tarde no Rio de Janeiro. A assembléia contou com a participação de funcionários de todas as emissoras do Grupo Bloch e ficou constatada a divisão entre os próprios funcionários.[44] Enquanto isso, em São Paulo, um grupo de 25 funcionários da TV Rede Manchete São Paulo invadem e ocupam a torre de transmissão da emissora exigiram o pagamento de um percentual do salário de um mês (70%). Com uma câmera, os funcionários transmitiram imagens de bilhetes pedindo ajuda ("Estamos passando fome", "Kappeler tem dinheiro e não paga", "Estamos sem salário há três meses"). Os transmissores chegaram a ser desligados, tirando à emissora do ar. A invasão terminou com a intervenção de diversos políticos.[44] No Rio de Janeiro também houve tentativa de invasão, mas a polícia, chamada pela direção da emissora, conseguiu evitar.[44] Nova assembléia foi marcada para dia 15.[44]

Vale lembrar que caso uma emissora fique fora do ar por mais de 48 horas seguidas, o governo é obrigado cassar a concessão,[44] [45] o que significará o desemprego para todos os funcionários da emissora,[44] porém, alguns sindicalistas acreditam que este fato possa levar o governo a realizar uma intervenção na emissora.[45] A cassação chegou a ser apontada como uma solução para a crise da emissora, já que existem grupos interessados na concessão. Mas o processo de leilão da concessão, por parte do governo, esbarra na legislação,[44] que poderia paralisar as atividades da emissora por mínimo de dois anos.[45]

No dia 15 de dezembro, os funcionários grevistas da TV Manchete Rio de Janeiro e a direção da Manchete se reúnem novamente no Rio de Janeiro.[44] Jacqueline Kappeler, diretora superintendente do Grupo Bloch, anuncia que a direção vai esperar definir o destino da emissora nas próximas 48 horas.[45] A empresa mais cotada para comprar a rede continua sendo o Grupo Abril. Especula-se que Pedro Kappeler já tenha iniciado as conversações com os diretores do grupo para a venda, o que depende o empresário Hamilton de Oliveira, se concordará com o negócio.[45]

Enquanto isso, os funcionários grevistas ameaçam tirar o sinal da emissora do ar, caso até dia 18, não seja apresentada uma solução para o pagamento dos salários atrasados.[45]

Em 16 de dezembro, a privatizada Embratel (administrada pelo grupo MCI) dá um prazo de dois dias, para que a Rede Manchete pague a dívida com a empresa (na época quando era estatal).[28] Caso não efetue, ameaça ampliar mais uma hora o período de suspensão do sinal da emissora, mantida entre às 23hs até 6hs. A punição já dura mais de dois meses e tem prejudicado a operação das emissoras afiliadas.[28] Caso a Embratel amplie o horário de suspensão, a emissora poderá deixar de apresentar em rede nacional a novela "Pantanal", que vem obtendo cerca de 10 pontos de audiência, causando graves prejuízos para a rede. Antes da ameaça, a Embratel normalizou a transmissão dos sinais da CNT, que também tinha recebido a mesma punição.[28]

No mesmo dia, em decisão da juíza Rosana Travesedo, do Tribunal Regional do Trabalho, dá ganha a causa aos sindicatos dos jornalistas e dos radialistas em ação na qual pediam abono das faltas desde o início da greve e pagamento dos atrasados.[46]

Na TV Manchete Rio de Janeiro, o horário ocupado do bloqueio da Manchete pela Embratel são os programas da Igreja Universal do Reino de Deus do Edir Macedo. É que a igreja está transmitindo os programas, produzidos no Rio de Janeiro, através da Manchete. Boa parte da programação "ao vivo" da Manchete é referente à transmissão dos programas,[47] mas com materialismo como alvo.[48]

Com o aluguel dos horários da igreja, gerou especulações que Edir Macedo e o jornal O Dia (que veicula nos intervalos comerciais na rede) seriam pretendentes da compra, além do Grupo Abril, o grande favorito.[49]

No dia 17 de dezembro, a Rede Manchete paga 20% do salário de setembro (os representantes dos funcionários reivindicavam 70%)[50] e também partes à Embratel, evitando a ampliação de corte do sinal. No mesmo dia, o juiz Marco Aurélio Santos Fróes, da 35ª Vara Cível de Justiça do Rio de Janeiro, dá ganho de causa ao Grupo Bloch no processo movido contra o empresário Hamilton Lucas de Oliveira, do Grupo DCI, para retomada da posse da rede e cancelamento do contrato de venda. A decisão da justiça considera válida a rescisão do contrato de venda da Manchete e obriga o Grupo DCI a pagar uma indenização, a título de perdas e danos, no valor de 50 mil salários mínimos. Apesar da decisão ainda ser em primeira instância, poderá facilitar uma provável venda da emissora.[50]

Em 18 de dezembro, o dia em que a diretoria do Grupo Bloch anunciasse o destino da Manchete, com a transferência do controle da emissora para o Banco Pactual seja aceito e caberia ao banco a responsabilidade de sanear a emissora e posteriormente vende-la,[50] não ocorre,[51] pois a diretoria não cumpriu a promessa e manteve a indefinição sobre o futuro da emissora.[51] Segundo a diretoria, não foi possível fechar o acordo de transferência do controle da emissora. Oficialmente, o motivo do impasse é a responsabilidade pelo pagamento dos salários atrasados dos funcionários: o Grupo Bloch deseja que o Banco Pactual assuma a dívida enquanto que este preferência deixar esta responsabilidade por conta da SuperTV1, empresa que será criada para administrar a rede.[51] No final da tarde, a rede emitiu um comunicado informando que a aprovação do acordo ficará na dependência da aprovação dos funcionários.[51]

Em entrevista no final de semana à TV Cultura, o diretor Fernando Barbosa Lima (conhecido por ter criado de programas de qualidade como o "Persona", "Jornal de Vanguarda", "Xingu" e "Abertura"), faz duros ataques aos "Programas Populares", especialmente o "Programa do Ratinho" e o "Leão Livre". Nenhum momento na entrevista, ele citou é que era diretor geral da Rede Manchete, até pedir demissão em setembro e responsável pela criação de diversos programas popularescos da mesma rede, como "Na Rota do Crime", "Magdalena Verdade", "24 Horas", além das novelas eróticas de Walter Avancini. Foi sob a desastrosa gestão que a rede despencou de vez no popularesco e na crise.[52]

A reunião entre os sindicatos que representam os funcionários com o banco foi marcada para dia 21.[51] Justamente no dia da reunião realizada no Rio de Janeiro, os representantes dos sindicatos dos jornalistas, artistas e radialistas, em nome dos funcionários da Rede Manchete, fecham acordo com a diretoria do Banco Pactual. Pelo acordo, os funcionários da rede receberão integralmente os salários atrasados até um valor que não ultrapasse 70% da média dos salários da empresa. O valor que superar este teto será pago 50% em dinheiro e o restante com ações da empresa. Vale ressaltar que estas ações só terão valor caso a Manchete consiga se recuperar financeiramente. O acordo possa permitir a passagem do controle das emissoras para o Banco Pactual (apesar da relutância da família Bloch/Kappeller).[53]

Em 21 de dezembro, a vice-presidente da rede, Jaqueline Kappeller, pediu mais uma semana de prazo aos funcionários para concretizar a venda da emissora. Os empregados, que não recebem há três meses, haviam se comprometido a colocar a emissora no ar, desde que o negócio com o Banco Pactual fosse fechado. Em documento enviado à assembléia dos empregados, no Rio de Janeiro, Jaqueline insinuou que o Pactual não havia cumprido parte dos acertos para a venda.[54] [55] Apesar de terem assinado um acordo com o Banco Pactual, os funcionários em greve decidiram radicalizar o movimento, chamado de "A Estratégia de Sabotagem", que tem por objetivo, manter a pressão sobre os proprietários da emissora e divulgar a crise da emissora.[56]

Em 22 de dezembro, o "Jornal da Manchete" não entra no ar às 20h50, como era o tradicional horário, devido à greve dos funcionários do setor do jornalismo.[56]

Em 23 de dezembro, os funcionários tiram do ar o sinal da emissora por meia hora e prometem repetir o gesto até que seja pago os salários em atraso.[56]

Em 25 de dezembro, ocorre o novo impasse, desta vez foi à reivindicação de Pedro Kappeler, em receber uma indenização pela perda do controle da emissora. O Banco Pactual rejeitou de imediato. O comportamento da direção do Grupo Bloch deixa evidente o propósito de impedir a transferência do controle da emissora. Como consequência, nova radicalização do movimento grevista dos funcionários que agora ameaçam a emissora com uma "operação sabotagem".[57]

Na manhã do dia 28 de dezembro, o Banco Pactual anuncia durante a assembléia dos funcionários na porta da emissora, que não está mais negociando um contrato para sanear e vender a Rede Manchete, suspendendo as negociações de quatro meses. O banco informou que o fim das negociações foi motivado pela desistência dos dois últimos investidores interessados na compra da emissora. No início das negociações havia cinco investidores interessados no negócio, mas os impasses criados pelo Grupo Bloch para a assinatura do contrato de transferência acabaram por desanimar os investidores. Com a saída do Pactual, o destino da rede passa a ficar nas mãos do Ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga, que poderia cassar a concessão dada ao Grupo Bloch.[58] O presidente do Grupo Bloch, Pedro Jaques Kappeler (Jaquito) se disse surpreso com a decisão do Banco Pactual. Segundo ele, a assinatura do contrato para a transferência do controle da emissora seria assinada na parte da manhã. Comenta-se que a direção do Grupo Bloch, na realidade, nunca este interessada na transferência do controle da emissora para o banco.[58]

No mesmo dia, os funcionários da Manchete realizam a manifestação em frente à residência de Jaquito no Rio de Janeiro[46] e anunciaram que pretendem continuar com os cortes do sinal da emissora e com a realização de novas manifestações em frente à residência de Jaquito.[58]


Baseado no site Rede Manchete - Uma História de Sucesso, escrito por Diogo Montano: www.redemanchete.net/historia
Por Guilherme Barbosa, em 17/05/2009

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